A Menina espantou as galinhas com uma pedrinha e sorriu. Já ouvira muitas vezes que não deveria fazer aquilo, e se machucasse uma delas? Mas ela sabia que não ia machucar, as pedrinhas eram pequenas demais. Levantou o olhar quando o galo surgiu, o peito imponente, mas os olhos vazios como são os olhos de quase todas as aves. Ela procurou outra pedrinha e não encontrou, queria acertar o galo, não para se divertir, mas por pura maldade, aquele galo sempre andando por aí como se soubesse de tudo e fosse o dono do quintal.
A Mãe gritou o nome da Menina de dentro de casa bem na hora em que ela achou uma pedrinha para acertar o galo, então ele correu desajeitado, e a Menina suspirou pela oportunidade perdida.
— Já vou — disse a Menina, sem a menor intenção de levantar. Olhou o céu, o tempo prometendo chuva, mas ela sabia que era só isso mesmo, só uma promessa, aquele vento de agosto. Ouviu de novo a voz da Mãe, agora mais áspera, quase irritada. Ela não gostava de ter de chamar a Menina mais de uma vez, mas a Menina gostava do som de seu nome dito pela Mãe. Levantou sem responder e caminhou em direção à casa, atravessando o quintal.
— Mãe, como a gente sabe que galinha não pensa?
— Porque galinha é bicho e bicho não raciocina que nem gente.
— Mas como a gente sabe?
— Como sabe o quê?
— Que ela não pensa. Ela pode pensar, mas se fazer de boba. Talvez se todo mundo soubesse que ela pensa, podiam se aproveitar dela.
A Mãe ficou em silêncio. Já tinha dado a resposta pronta possível e era só aquela resposta que a Menina teria. Estava descascando milho, não tinha tempo para pensar com o que as galinhas sonhavam. A Menina sentou-se em um tamborete de frente para a Mãe e começou a imitar seus gestos. Ela não descascava o milho com tanta rapidez como a Mãe, mas tentava. Em sua cabeça, aquela era uma competição, quem termina primeiro, quem coloca mais milho no balde. A Mãe olhou em direção à porta.
—Parece que vai chover.
A Menina acompanhou o olhar, mas nada disse. Estava entediada. Queria voltar a acertar pedrinhas na cabeça do galo. As mãos habilidosas da Mãe, as mãos atrapalhadas da Menina, o milho, as galinhas. Mais tarde a Mãe com certeza faria um bolo, a Menina já conseguia sentir o gosto.
Diziam que a Menina era encantada. E diziam isso com razão e medo, desde aquele dia, à beira do rio, quando ela ainda era bem pequena. Enquanto a Mãe lavava e esfregava as roupas, a Menina se divertia sozinha, brincando por perto. Todas as mulheres que iam lavar roupa naquele rio tinham filhos ou mesmo que não tivessem uma criança em suas saias, estavam esperando no ventre. Mas, naquela manhã, não havia outra criança pequena além da Menina.
À beira do rio, além das plantas maiores que faziam sombra às mulheres, cresciam pequenas folhagens rasteiras, que ela com frequência precisava ser advertida para não engolir. Naquele dia, enquanto as mulheres falavam, a Menina arrancava as folhas de um mato qualquer, quando a avistou. Devia ter pouco mais de um metro, mas para ela, era só um brinquedo comprido. Sorriu para a outra, como se sorrisse a uma pessoa, e chamou a serpente para junto de si, com seus pequenos sons desconexos de criança. A serpente, sem se fazer de rogada, aproximou-se e a abraçou, conversando com a Menina, como há muito tempo havia conversado com A Primeira Mulher.
Como se tivesse uma intuição — ou talvez, apenas pelo hábito de sempre olhar para a filha, de tempos em tempos — a Mãe levantou os olhos à procura da criança. Não pode deixar de gritar ao vê-la enroscada pela cobra:
— Minha Nossa Senhora, tem piedade!
E saiu correndo em direção à filha, sem nada nas mãos e sem nenhum plano específico para matar aquela cobra. Talvez ela quisesse esmagá-la com as próprias mãos, mas em todo caso, não foi necessário. Assim que a Mãe se aproximou, a serpente, num movimento ágil, largou a Menina e rastejou, por baixo das folhagens, para longe da vista humana.
— Menina, quer me matar de susto? — gritava a Mãe, culpando a Menina pelo abraço que a outra lhe dera. A pequena não entendia a briga e por isso, começou a chorar enquanto a mãe inspecionava para ver se ela estava em perigo. Não viu nenhuma marca e respirou, aliviada, levando-a consigo de volta para o rio, para junto de si e das outras mulheres, que quando viram Mãe correr, esperavam apenas que ela trouxesse a filha morta ou envenenada pelo animal peçonhento.
Aquela foi a primeira vez que a Menina se provou encantada, pois não apenas não tinha sido picada, como ainda ouvira a voz da cobra. Infelizmente, ninguém soube da segunda parte, pois ela ainda era uma criança silenciosa, e a despeito de seus quase três anos, preferia manter as palavras dentro de si.
Mas não foi só isso.
Nos períodos de chuva, a Menina gostava de ir aos rios, brincar de ser sereia, naquelas águas turvas e com plantas nas margens. Também gostava dos bichos que via na água dos rios, que pareciam muito mais interessantes que os bichos de casa. Lá ela reencontrava a cobra, que costumava fazer sua digestão ali mesmo, na água, encostada nos galhos próximos. Quando ela passava, a serpente — agora com mais de sete metros — acenava-lhe respeitosamente com a cabeça, em um gesto educado.
A Menina não gostava mesmo era do galo do quintal. Ele estufava o peito, certo de ser o maior rival da Menina no afeto da Mãe. Ela dava milho primeiro a ele, a menina tinha reparado. Pobres das galinhas, essas tontas, tendo que esperar o galo comer. Mas elas nunca esperavam. As galinhas corriam em desespero, bicando tudo no caminho, os olhos vazios.
Além do galo, a Menina também não gostava do Pai. Ele parecia um galo, sempre de peito estufado, sempre brigando com a Mãe. Às vezes, ele a machucava, a menina sabia. E então ela o odiava ainda mais profundamente que ao galo.
O Pai era um homem alto e forte. Além de sua força e tamanho, também era reconhecido por outro atributo: sua agressividade. Se chegasse em casa e não encontrasse a comida na mesa, esmurrava a mulher. Se encontrasse a comida, mas esta, por alguma razão, não estivesse bem salgada, ele batia nela até que suas lágrimas salgassem o peixe.
Em geral, ele procurava os menores motivos para espancar a mulher, de modo que a Mãe sabia que apanharia pelo menos uma vez por dia. Havia, é claro, as exceções: na Páscoa, ele não ousava levantar a mão para a mulher, e em dias de boa pesca, saía para o bar, voltando para casa às quedas, acordando só no dia seguinte com uma ressaca tão forte que o impedia de bater em quem quer que fosse.
Se apanhava na véspera de ir lavar roupa no rio, a Mãe costumava vestir uma blusa de mangas longas, e ao ser questionada se aquilo não fazia muito calor, inventava uma desculpa:
— É por causa do sol, dizia. O que ela não dizia é que se sentia envergonhada. O que ela não dizia é que assim que tivesse uma chance, fugiria dali, só ela e a Menina.
— Parece que vai chover — repetiu a Mãe, no dia seguinte. A Menina olhou para o céu, talvez chovesse mesmo. E então o rio ficaria cheio, seria bom para brincar de sereia. Mas a Mãe não tinha roupa para lavar. Cozinhava. Uma comida que deixasse o Pai feliz, e quem sabe, ele a deixasse em paz, nem que fosse só por hoje.
A Menina sentia o ar da casa ficando pesado, à medida que o horário de chegada do Pai se aproximava.
Então ele chegou.
E não serviu de nada o pirão.
Não serviu de nada o curimatá assado.
Naquele dia ele espalhou as panelas por toda a casa, uma fúria que a Mãe nunca tinha visto, e espancou a mulher como se ela fosse um trapo. Chutou, arranhou, estapeou. Foram muitos os castigos, e no fim, ela nem se lembrava mais a razão daquilo. Sal demais? Pirão muito seco? O que tinha sido, afinal?
A Menina se escondeu no galinheiro, como a Mãe ordenou, assim que viu o Pai chegando. Talvez o Pai esquecesse que existia Menina. Deixou a Mãe caída, e saiu dizendo:
— Quero achar comida pronta na hora que eu chegar.
Mas a comida estava pronta, pensou a Mãe. Pronta e espalhada pelo chão da casa.
Começou a chover. A Menina ajudou a Mãe a levantar, ajudou a limpar as feridas. Não chorou. Aquela não era a primeira vez que fazia isso. Então a Menina se lembrou da canção da serpente. Quando a Mãe adormeceu, ela saiu. Foi para o rio onde brincava de sereia.
A serpente estava lá. Ela nadou — era uma excelente nadadora, mas que sereia não era? Na outra margem do rio, conversou com a sucuri. Lembrou do abraço e da promessa. A serpente assentiu. Faria o que Menina pedira, ah! faria com muito gosto. Gostava da Menina. Ela nadou de volta. Foi ficar com a Mãe.
Quando o relógio bateu seis horas, a Mãe acordou de um sono machucado sem sonhos, assustada. Não tinha jantar pronto, o que ela faria? Fechou os olhos quando ouviu a porta, temendo outra surra.
— Teu pai chegou? — perguntou, num fio de voz, ao ver a menina entrar no quarto.
— Ainda não.
A Menina sabia que ele não voltaria nunca mais.
Dois dias depois, encontraram o corpo do Pai, na água, os olhos vazios como olhos de um galo. Os meninos da beira do rio disseram ter visto a serpente vomitar o homem inteiro, e alguns juram que, enquanto fez isso, a serpente sorriu. E ela sorriu. Era um favor que fazia à uma velha amiga.
O Favor foi o conto que me fez querer publicar um livro. Escrevi a primeira frase dele em 2011, dez anos antes da publicação. Gosto dessa história, me lembra um pouco a atmosfera de Bordado em Ponto Corrente. Em 2026, quero relançar Eu Te Serviria Meu Coração Com Vinho Branco, com os contos conhecidos e outros inéditos. Espero que vocês queiram ler <3
Com muito carinho,
Rute


Me veio à lembrança, como referência, Ruth Guimarães.
te ler é tão mágico, Rute