50 dias
ou nenhum deles
Há cinquenta dias, aluguei um apartamento. Fica bem longe do centro da cidade, essa é a primeira coisa que digo sobre ele. Porque ainda não sei dizer muita coisa.
Ainda me confundo sobre a posição dos interruptores, meus dedos passam pela parede lisa buscando aquele que ligaria a lâmpada, mas, descubro depois, ele fica do outro lado. Por falar em lâmpadas, só ontem reparei que há duas na sala, que acendem juntas. Eu podia jurar que era só uma.
Cinquenta dias e ainda me atrapalho pra saber onde ficam as tomadas, se eu ligar o ventilador nessa onde coloco o carregador? Ah, tem aquela. Eu não tinha reparado.
Não sou tão desatenta (OK, sou), mas a verdade é que habitei pouco essa casa. Tenho viajado, cuidado dos gatos em outra casa, tenho saído mais. E nisso a casa, que deveria se colar às minhas pálpebras, ainda não o fez. E então cinquenta dias parece nenhum quando me dou conta que não sei descrever a torneira da pia, não lembro se é de inox, não sei qual a marca do fogão (aluguei o apartamento com a mobília) e muito menos recordo detalhes sobre o banheiro.
Mas arrumei meus livros na estante e sei onde cada um deles está. Perdi A Casa dos Espíritos. Emprestei Cais da Sagração e nunca me devolveram. Achei O Jogo do Amor e da Morte, tenho os livros de Kafka em edições bonitas de bolso e capa dura. Sei onde estão os meus decks de tarô, cada um deles, e ainda não acho que são muitos, pensando bem. Eu uso todos eles, certamente não são muitos.
Também sei sem olhar onde ficam as xícaras de chá, minha caixinha de chá, as duas garrafas de vinho vazias sob a mesa, sei o lugar de cada planta: em cima dos livros, ao lado dos livros, perto da porta, em cima da mesa, do lado de fora. Essa não era minha mas agora sinto que é - uma planta pode ser nossa? me ocorre agora que uma planta tem a mesma natureza de um gato.
Gosto desse apartamento. A luz de manhã entra bonita, se espalha sobre o tapete de crochê que minha mãe me deu, a luz da tarde também, é possível ver os pardais nos fios e no final da noite, na cama, consigo também ver as estrelas e, numa determinada posição no sofá, até a lua.
Talvez, agora penso, preciso de mais cinquenta dias pra me acostumar direito.
Julho é o mês que minha coragem de publicar faz aniversário. São cinco anos em 2026, embora eu escreva desde que me lembro e pra celebrar comigo, baixe e leia A Urdidura da Matéria e Eu Te Serviria Meu Coração Com Vinho Branco por apenas 3,94 cada. E se você já leu, não esqueça de avaliar, assim o que eu escrevo chega mais longe.
Obrigada por me acompanhar em mais essa edição.
Com carinho,
Rute



Acho que aquilo que é mais importante pra gente logo gruda na nossa mente: o lugar onde estão os livros, os decks, as plantas, as xícaras. Aquilo que é menos importante, como interruptores e tomadas, acabam passando batido, pelo menos para algumas pessoas. Hehe
Lembrar as pequenas coisas como a torneira, a marca do fogão, isso costuma passar batido mesmo, não é primordial, é só parte da casa. Não sei se 50 dias ou mais faria muita diferença. Heheh
Também, sobre móveis, se não foi a gente que escolheu, você se lembra menos por não ter nenhum tipo de afinidade pessoal com aquilo. Pra mim é assim.
No meu apto, como tudo fui eu que instalei, comprei, escolhi, sei exatamente o que é o quê e onde está cada coisa. Por isso eu acho que a relação pessoal que temos com as coisas é o que mais pesa nessas horas. :)